terça-feira, 2 de março de 2010

criancices

Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Desde que me tornei homem, eliminei as coisas de criança.” - Coríntios 13: 11

O rosto dela parecia alumínio.

Tem instantes na vida que a gente esquece as palavras – tudo o que temos é aquela sensação engasgada de que há algo a contar, mas nada a dizer. O cérebro desliga com uma faísca, enquanto toda racionalidade se apaga. Nada do que você estudou ou aprendeu sobre aquele trambolho atrás do qual você se esconde vai estar acessível agora. É tarde demais, então espero que você tenha regulado direito esta porcaria.

Minha primeira lembrança é uma chuva de ervilhas, fora de foco, aos dez meses de idade. E dali pra frente tudo está lá, em estado tão puro e desconexo como só um bebê é capaz de conceber. É para onde retorno enquanto as linhas vão convergindo delicadamente à minha frente, e o mundo vai aos poucos sendo criado.

Meu big bang particular.

A vida passa rápido demais, e ninguém olha para os lados, muito menos para frente. Acho que construímos uma barreira enorme, destinada a assassinar friamente a informação que nos chega – a todo custo. Conseguimos fugir praticamente a vida inteira de um momento inevitável. Aquele instante em que o fast forward pára, subitamente, e você vê.

Vê o mais absoluto milagre da banalidade. E você não consegue tirar os olhos dele, porque é a coisa mais foda que você já viu na vida. São ervilhas caindo, fora de foco. É uma chuva de luz tocando um rosto que parece alumínio, e espirrando para todos os lados, em preto e branco porque você acabou de dizer para o seu cérebro enxergar assim – e de um jeito bizarro, você enxerga.

Aí está o seu momento de realidade – quando ela chega a você assim, purinha, sem interferências, fazendo todo o sentido do mundo. E aí você faz a merda de tentar pensar.

E tudo foge por entre os dedos, deixando apenas uma imagem, e uma delicada pista do que é o mundo, inteligível apenas para um bebê.

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